Entrevista a ex – combatente da guerra do ultramar – Angola

 

Nós, os alunos do 4ª Ano, turma B, da Escola da Rinchoa 2 e para consolidarmos as matérias aprendidas, preparámos uma entrevista na sala de aula com a professora Maria Gomes Correia. Essa entrevista foi feita ao senhor Francisco Afonso Carreira, ex- combatente da guerra no ultramar, de 1974 a 1976 e conhecido da nossa professora. Este senhor disponibilizou -se a responder-nos ao inquérito e a falar-nos da situação política e económica daquela época, assim como mostrar – nos fotografias da sua estadia em Angola. Nós adorámos conversar com o senhor, porque aprendemos muito, foi muito interessante ver algumas imagens da época, da guerra – guerrilha e de costumes do povo africano. Como aprendemos!!!! Foi muito divertido e emocionante… Passamos a transcrever as perguntas do inquérito.

1- Como se chama o senhor? Eu chamo-me Francisco Afonso Carreira.

2- Em que país é que combateu? Eu combati em Angola.

 3- Foi obrigado a ir combater ou foi voluntário? Eu fui obrigado a combater, o serviço militar era obrigatório. Alguns fugiam porque não queriam ir para as guerra.

4- Que idade tinha o senhor, quando foi para a tropa? Eu tinha 21 anos. Estive cerca de um ano em Portugal, a preparar-me antes de ir para Angola.

5- Quantos anos tinha quando foi para Angola? E quando veio? Quando fui para Angola tinha 22 anos; fui no dia 24 de Junho de 1972, dia de S. João. Regressei em Agosto de 1974 e já tinha 24 anos.

6- Qual era o seu posto? Quando fui para Angola era cabo meliciano, depois fui promovido a furriel meliciano que pertence à classe dos sargentos.

7- Morreu alguém no seu grupo? Conte-nos como aconteceu? Sim, logo nos primeiros tempos morreram o padre capelão, o piloto de uma avioneta e o cabo analista. Eles seguiam na avioneta e esta embateu contra uma árvore muito alta e morreram. De outra vez, uma mina rebentou e o Afonso, que ia à frente, foi projectado para muito longe, tendo ficado debruços, sem os intestinos, sem as duas pernas, o fémur das coxas todo descarnado… e morreu! Solicitámos ajuda para o quartel via rádio para levar o morto e os feridos e veio um helicóptero. Foi muito difícil falar pela rádio e foi um outro quartel que conseguiu apanhar essa frequência, tendo eles comunicado com o nosso quartel…Nós tivemos que continuar, não nos deixaram ir para o quartel. Foi muito duro continuar! Já éramos menos!

8- O Senhor ficou traumatizado da guerra? Actualmente sonha e tem pesadelos por causa da guerra? Não, nunca fiquei traumatizado e actualmente também não tenho pesadelos.

 9- Ficou alguma vez ferido? Não, só me magoei uma vez a saltar de um carro da tropa em andamento, mas sem gravidade.

10- Alguma vez foi premiado ou castigado? Não, nem uma coisa nem outra.

11- Saía muitas vezes do quartel para combater? Quanto tempo andava fora do quartel? As saídas chamavam-se operações e andávamos por fora 3, 5 ou 8 dias… Em média saíamos 2 ou 3 vezes por mês. Outras vezes saiamos para ir buscar lenha para cozinhar porque não havia fogões como temos agora; também tínhamos que ir buscar água, alimentos e fazer protecções aos MVL( movimento de veículos de Luanda)

12- Como comiam e bebiam nessas saídas? Comíamos rações de combate, à base de alimentos enlatados e pré -cozinhados que levávamos numa mochila às costas. Era difícil transportar tudo às costas e ainda a arma G3. Bebíamos água corrente dos regatos e enchíamos sempre o cantil que levávamos… Felizmente naquela zona norte de Angola havia muita água.

13- Quando saíam ficava alguém no quartel? Sim, ficava sempre gente no quartel. Até porque podia ser assaltado pelos guerrilheiros. Umas vezes ficava mais gente, outras menos.

 14- Como comunicavam com a família? Era raro comunicar com a família porque não havia Internet, nem telemóvel nem telefones fixos, vivíamos na mata. Para os outros países era uma carta normal com o respectivo selo, para Portugal escrevia-se os aerogramas: era uma folha de papel esverdeada que depois de escrita dobrava-se e colava-se nas pontas. Tinham um preço simbólico, muito barato. Também gravava cassetes e enviava. Havia um rádio muito potente que funcionava como emissor e receptor, mas não servia individualmente.

15-Como ficou a sua família quando soube que ia partir para a guerra? Eu tive conhecimento de que partia para Angola cerca de um mês antes da partida. Os meus pais só souberam quando eu já lá estava, isto para não os chocar. A minha única irmã soube-o dois dias antes, porque estávamos a conversar com um amigo que também ia comigo e o amigo escorregou-se e disse-o sem querer, sem pensar… a minha irmã ficou boquiaberta, nem queria acreditar… mas compreendeu o motivo do meu silêncio. Foi despedir-se de mim ao aeroporto de Figo Maduro.

16- Como viajou para esse país? Viajei de avião mas até ali a maior parte das tropas iam de barco. Havia uns barcos muito grandes: o Santa Maria, o Vera Cruz …, mas demorava muito tempo a viagem.

17- Quando aconteceu o 25 de Abril de 1974 onde estava? Sabia que ia dar-se a revolução dos cravos em Portugal? Eu estava junto à fronteira do Congo e só soube que se tinha dado o 25 de Abril dois dias depois e soubemos por via rádio, emitida pela África do Sul.

18- Conheceu algum polícia da PIDE? Sim, só conheci um e foi depois de vir de Angola.

19- Acha que o 25 de Abril trouxe a democracia para o povo Português? Sim, as pessoas passaram a ter liberdade de expressão dizendo e escrevendo o que pensavam. Deixou de haver presos políticos e acabou a guerra em África, sendo reconhecido o direito à independência das colónias. As pessoas já se podiam reunir para falarem e discutirem o que quisessem. É pena que muitas pessoas não saibam aproveitar a liberdade que têm…e muitos políticos parece que se esqueceram da razão do 25 de Abril de 1974…

20- Ainda tem amigos da época da guerra? Sim. Muitos, mas alguns já morreram. Os dias difíceis passados em conjunto, uniu-nos muito, éramos como uma família. Todos os anos nos reunimos num almoço convívio e em lugares diferentes de Portugal.

21- Quais os aspectos positivos da sua experiência na guerra? A guerra por si mesma é sempre má, não tem aspectos positivos, estes somos nós que os transformamos, de negativos em positivos. É assim que deve ser sempre a nossa vida.. Foi uma experiência de vida; fiz muitas amizades, fiquei mais maduro, mais autónomo e independente, mais cumpridor de regras e disciplinado. A disciplina é muito importante!

MUITO OBRIGADA PELA SUA ENTREVISTA

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