Entrevista à professora Maria Emília

 

Aluno: Nós somos os alunos da turma do 3.º A da escola EB1/JI Rio de Mouro n.º 2 que estamos a fazer um trabalho de investigação no âmbito do estudo das personalidades que nasceram ou viveram na freguesia e das comemorações do Dia do Patrono do Agrupamento que se realizam a 11 de Fevereiro, data do nascimento do Padre Alberto Neto.

 

Hoje temos entre nós a professora Maria Emília que conheceu e trabalhou com o padre Alberto Neto e nos vai falar dele.

Bom dia, professora Maria Emília. Quando é que a professora conheceu o padre Alberto Neto? 

Maria Emília: Bom dia. Conheci o Padre Alberto Neto em Outubro de 1984.

Aluno: Em que circunstâncias se conheceram?

Maria Emília: Conheci-o no dia em que ele celebrou a primeira missa na capela de Rio de Mouro. Uma capela que já não existe e que ficava do lado de cima da estação do comboio. Foi, justamente, nesse Domingo, em que ele celebrou a primeira missa, que eu o conheci.

Aluno: Onde morava o padre Alberto Neto em Rio de Mouro?

Maria Emília: O padre Alberto Neto tinha a casa dele em Lisboa, na avenida Casal Ribeiro. Alguns meses depois de vir para a paróquia comprou com o dinheiro da igreja, claro, uma casa na rua do Vale, na Rinchoa, que por acaso é a rua onde eu moro. Passou a ser a casa paroquial, onde morava o padre, prior da paróquia de Rio de Mouro que era ele.

Aluno: Para a professora, quais eram as suas maiores qualidades?

Maria Emília: A maior qualidade que ele tinha era dar atenção a toda a gente, fosse de que raça fosse, fosse rico ou fosse pobre. Quem lhe levasse um problema, ele ouvia com tenção, tentava ajudar a resolver. E nesse sentido fez coisas boas, muito boas na paróquia de Rio de Mouro. Por exemplo: na escola primária da Serra das Minas ele tomou conhecimento que um grande grupo de meninos e meninas pobres, iam para a escola sem comer e que à hora do almoço não tinham em casa quem lhes desse o almoço. Então, ele junto da Câmara Municipal de Sintra conseguiu que instalassem na escola uma cantina que passou a dar almoço a esses meninos.Criou um centro paroquial onde ensinavam senhoras a bordar tapetes de Arraiolos, a fazer rendas de bilros e a costurar, portanto a confeccionar vestidos, saias e blusas. O centro tinha também uma sala de ATL onde estavam meninos na hora em que não estavam na escola. Entre outras coisas, estas são as duas mais notáveis que eu me lembro que ele tenha criado aqui em Rio de Mouro.

Aluno: O que é que ele fez para ajudar os pobres?

Maria Emília: Eu já respondi a essa pergunta. Não sabia que ma ias fazer. Já te falei da criação da cantina na escola primária da Serra das Minas para dar de comer aos meninos mais necessitados. Aos pobres, propriamente aos pobres, assim um grupo organizado para os ajudar não havia, porque não tínhamos condições de espaço para conseguir ter géneros alimentícios para depois distribuir. Isso é uma coisa que temos presentemente, na nossa igreja. Naquela altura era impossível, porque a capela era muito pequena e não havia espaço para fazer esse trabalho.

Aluno: Sabemos que a educação era uma das preocupações do Padre Alberto Neto. O que é que o seu documento “A Escola Nova” tem de tão importante?

Maria Emília: Tem uma série de ideias que ele tinha sobre como devia ser a Escola. Devia ser um lugar de convívio, de amizade, para além do bom comportamento, um encontro de amigos, sem haver aquela grande distância entre professores e alunos, como acontecia na época. Ele era professor de Educação Religiosa na Escola Secundária de Queluz e portanto como professor interessava-se pela educação.

Aluno: Como é que era, no dia-a-dia?

Maria Emília: Uma pessoa muito acolhedora. Recebia bem toda a gente. Tinha um sorriso para todos, não era distante. Quer dizer, ele contactava com uma pessoa que via pela primeira vez como se já a conhecesse há muito tempo. Não era vaidoso, era simples na maneira de tratar e de se apresentar. Era uma pessoa encantadora.

Aluno: A professora Maria Emília gostava muito do Padre Alberto Neto?

Maria Emília: Eu gostava muito dele. Contactei e trabalhei com ele, passando ele a ser uma visita em minha casa como se fosse um familiar. Era como se fosse um tio dos meus filhos, um amigo grande que tínhamos. Uma pessoa que conversava connosco com amizade, com responsabilidade, que por vezes punha os seus problemas que nós não ajudaríamos a resolver mas ouvíamos com muita atenção.

Aluno: Com quantos anos morreu?

Maria Emília: Morreu com 56 anos. Já não era uma criança. Já era um senhor careca. Era cheio de vida, tinha mais vida do que muitos jovens. Ele era cheio de genica. Era um Sportinguista (risos e palmas).

Este ano, em 2010 completam-se 23 anos em que o mataram. Vocês sabem que ele não morreu de morte natural? Mataram-no com um tiro. Ainda hoje não sabemos quem foi

Eu fui muitas vezes interrogada pela polícia Judiciária sobre a morte dele, mas conforme eu não sei nada eu creio que a polícia também não sabe. Quando morreu estava a vir de carro do Algarve para Rio de Mouro. Sabe-se que ele vinha com alguém dentro do carro. Não vinha sozinho. Alguém que vinha com ele, fê-lo parar o carro perto de Setúbal, numa localidade chamada Águas de Moura. Por aquilo que foi observado fizeram-no sair do carro e quando ele estava de costas mataram-no com um tiro por trás, na zona do pescoço. Os motivos são desconhecidos. A polícia investigou mas não conseguiu descobrir. O seu corpo foi descoberto três dias depôs de ser morto, por um bombeiro que foi fazer chichi à mata.

Aluno: Por que é que o padre Alberto Neto gostava tanto de ajudar as pessoas?

Maria Emília: A resposta é muito simples. Ele era cristão e era bom.

Aluno: Como era ele quando criança?

Maria Emília: Não sei. Não o conheci. Já te disse que só o conheci em 1984.

Devia ter sido um menino alegre, brincalhão, porque ele ainda assim era quando eu o conheci e já tinha 50 e tal anos. Muito alegre, muito falador, muito comunicativo.

Aluno: Ele tinha uma vida feliz?

Maria Emília: Se ele tinha uma vida feliz? Parecia. Pelo menos pelo ar dele, pela maneira como se comportava, parecia um pessoa feliz. Acredito que fosse feliz.

Aluno: Ele achava “seca” ser padre?

Maria Emília: Não! De maneira nenhuma. Ele adorava ser padre.

Aluno: Ele gostava de ter filhos?

Maria Emília: Não. Ele, inclusive uma vez disse-me que se a igreja autorizasse os padres a casar, que é uma coisa que a igreja não autoriza, que nunca se casaria. Queria dedicar o seu tempo inteiramente à sua função de sacerdote. Não queria o compromisso de ter mulher e filhos.

 

Aluno: Como se vestia o Padre Alberto Neto?

Maria Emília: Muito simples, umas calças de ganga, uns sapatos de ténis, uma camisola se estivesse frio, uma camisa se estivesse calor e uma coisa que nunca lhe faltavam, um boné na cabeça.

Risos dos alunos que comentaram: “Era um homem moderno.”

Aluno: Obrigada por nos ter ajudado a conhecer um pouquinho melhor, o Padre Alberto Neto.

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